As novas constelações familiares, constelações multidimensionais ou constelações do espírito.


Nessa parte do texto, Bert Hellinger fala sobre as novas constelações, e traça um panorama da abrangência que pode ser atingida, tanto do ponto de vista individual quanto coletivo.

Vale a leitura do livro todo ou de reler essa parte, para perceber o significado profundo que esse trabalho pode assumir.


“Evidentemente, na nova constelação familiar, os representantes e o condutor são possuídos e conduzidos por outro poder. Nesse processo, que ultrapassa todas as separações, são reunidas aquelas pessoas que antes não tinham nenhuma conexão e estavam apartadas. Esse é um poder do amor, que anula todas as separações. O que exatamente isso significa? As distinções entre bem e mal ou entre pertencente e excluído, que muitas vezes se encontram em primeiro plano para nós, deixam de ter validade. O que esperamos até o momento na psicoterapia aparece em segundo plano com tudo o que desejamos alcançar com nossa boa consciência e nossa vontade.


Tudo isso acontece independente de nossas concepções comuns e de nosso pensamento habitual. Na nova constelação familiar, os eventos se passam diante de nossos olhos, sem intervenções externas, como uma revelação clara para todos, que seria justamente a intervenção de um poder diferente e espiritual. Os representantes e o condutor da constelação se comportam como médiuns, por meio dos quais outras forças atuam. Estas conduzem a soluções que nos tinham sido recusadas até o momento.


Além da consciência pessoal e coletiva, nesse instante entra um terceiro tipo de consciência em jogo, que chamei de “consciência espiritual”. O espírito criador une em um plano superior o que estava separado, pois nesse plano não há rejeição nem exclusão. O indivíduo cresce além de sua consciência pessoal. Reconhece a consciência de outro grupo como igual à consciência de seu próprio grupo. Do mesmo modo, todos os movimentos do espírito se direcionam com amor e benevolência. As distinções entre bem e mal, melhor e pior são separadas. Ao mesmo tempo, a consciência espiritual impede que se despreze os limites da consciência coletiva, pois se destina igualmente a todos.


Percebemos a consciência espiritual ruim como um bloqueio, uma inquietação interior e uma fraqueza. É o que acontece quando excluímos alguém de nosso afeto e de nossa benevolência. Deixamos de estar em sintonia com o movimento do espírito e nos sentimos abandonados, interiormente vazios e entregues a uma falta de sentido ameaçadora. No entanto, por sua vez, esse efeito da consciência espiritual ruim reconduz à harmonia com os movimentos do espírito. Voltamos a ter paz no amor e na atenção por todas as coisas, tais como elas são.

Escrevi sobre o efeito da consciência espiritual em uma história.


O Fio condutor

A imagem do fio condutor remete a Ariadne, que entrega a Teseu um longo fio vermelho para que ele consiga sair do labirinto no qual tem de enfrentar e matar o Minotauro.

Do mesmo modo, em nossa vida também recebemos um fio condutor. Sempre que estamos para nos desviar do caminho certo, com seu auxílio encontramos a saída da escuridão para a claridade.


Essa é uma imagem simples. Na realidade, temos um fio condutor em cada mão. Na direta, um fio espesso; na esquerda, um fio tão fino que nossos dedos mal conseguem sentir.

Após certo tempo, o fio espesso da direita acaba. Embora nosso caminho siga adiante, já não podemos contar com ele. Agarrados a ele, retornamos para o local de onde partimos.

Talvez tentemos uma segunda e depois até uma terceira ou quarta vez, mas o resultado sempre será o mesmo. Para prosseguirmos, esse fio não é suficiente. Se contarmos com ele, passaremos a vida indo e vindo, sem achar a saída que está bem adiante, do outro lado, e conduz a outra claridade e extensão.


Se chegarmos a um fio com o fio condutor espesso, talvez nos lembremos do fio fino que até então permaneceu quase imperceptível para nós e não nos deu um apoio sólido.

A pergunta é: vamos ter coragem de confiar nele? Vamos ter coragem de soltar o fio espesso e seguir o fino no labirinto de nossa vida?


Nesse meio-tempo, talvez nos perguntemos: quem ou o que é esse fio condutor espesso, que é forte, mas curto demais? E quem ou o que é esse fio fino, mas comprido, que nos indica outra saída e conduz a outra claridade?


O fio condutor espesso, com o qual acreditamos poder contar sem dificuldade, é nossa boa consciência. Ele só conduz até certo ponto do labirinto de nossa vida. No final, em vez de nos fazer prosseguir, traz-nos de volta para o ponto de partida. Por quê? Porque, com sua ajuda, sempre distinguimos o bem do mal e, assim, nosso amor logo chega ao fim. A claridade, na qual nossa imagem é alterada pela chamada consciência boa. Eles sempre retornam ao mesmo ponto de partida, onde se orientam brevemente, encontram tudo em ordem e começam o mesmo jogo mais uma vez.


Agora queremos saber onde o fio fino nos conduz. Como o sentimos em nossa mão esquerda?


Nós o sentimos no afeto e no amor por todas as coisas, tais como são, no afeto pelo bem e pelo mal em igual medida, para além de nossa inocência e de nossa culpa. Com esse fio condutor na mão esquerda, paramos a todo instante. Queremos ter certeza de que ainda o estamos seguindo, de que ainda o sentimos em nossa mão esquerda. Somente então prosseguirmos, orientando-nos por ele.


Como reconhecemos que ainda o temos na mão e que a ligação com ele continua?

Nós o sentimos em nossa paz profunda, para além da pressa. Em vez de caminhar, sentimos que somos puxados com delicadeza, até que, após algum tempo, com sua ajuda avistamos ao longe a saída do labirinto com uma luz, perto do destino.


Ao chegarmos ao final de nosso labirinto, todas as coisas nos parecem como são, sob uma luz suave. Os contrastes perdem os contornos. Sentimo-nos pacificamente unidos a todas as coisas, tais como são. Como? Com um amor que tudo abrange, levados pelo amor de nossa origem e permanecendo unidos a tudo.


Quando reconhecemos os limites de nossa consciência pessoal e as superamos em sintonia com os movimentos do espírito e com o auxílio da consciência espiritual, a nova constelação familiar torna-se até mesmo um caminho para ultrapassar as fronteiras entre os povos.


Reunimos o que antes se opunha. Por exemplo, quando povos que antes travavam guerras uns contra os outros choram juntos pelos mortos de ambos os lados. Quando se dão as mãos por cima dos túmulos e colaboram com estima mútua pelo bem de todos. Também nesse caso a nova constelação familiar revela o que há no caminho desse futuro em comum e como esses obstáculos podem ser superados. Também nesse caos se inicia a paz nas almas, uma vez que ambos os lados permanecem juntos em posição inferior, sem se erguerem acima dos outros e apegando-se a acusações. Todos os participantes de um seminário são incluídos nesse processo e envolvidos nesse movimento de paz e reconciliação. Trata-se de um movimento que ultrapassa a família do indivíduo e leva os participantes para uma dinâmica indescritível e muito além do que se pode imaginar. Mais do que isso: em seguida, muitos já não precisam da própria constelação.


A nova constelação familiar também se mostrou útil e inovadora no setor público das profissões e empresas, sobretudo porque alcança um passado distante. Traz à tona contextos ocultos de sucesso e fracassos e possibilita mudanças decisivas. Nesse caso, o passado significa que aqueles ancestrais, dos quais nada sabemos porque viveram muito antes de nós, e acontecimentos que permaneceram sem solução aparecem na nova constelação familiar. Desse modo, de repente, nos conscientizamos de que nossos antepassados continuaram a viver em nós e de por nosso intermédio e conosco quiseram encerrar alguma coisa para que nós e eles tivéssemos paz. Nesse processo, alguns detalhes continuam ocultos. Contudo, os movimentos decisivos – por exemplo, aquele que reconcilia vítima e malfeitor – podem ser vivenciados e encontram seu fim.


Às vezes percebemos que a escolha de nossa profissão está a serviço dessa reconciliação. Após uma constelação na qual os antepassados são considerados, nossas possibilidades se ampliam em grande medida. Também pode acontecer de nossa vida e nossa profissão tomarem um novo rumo, e nossas capacidades reprimidas até o momento terem uma chance de serem postas em prática.”







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